Desigualdade não é o mesmo que pobreza

Por Juan Ramón Rallo / Publicado no blog do autor

Na cabeça das pessoas, os conceitos de “pobreza” e “desigualdade” estão interligados: se existem pobres é porque temos desigualdade; se a desigualdade aumentou é porque a pobreza aumentou. Esta mentalidade tende a se fortalecer durante períodos de crise econômica, quando produto interno bruto do país (PIB) entra em queda. A própria economia tende a ser equiparada a um jogo de soma zero, ou seja, que quando alguém aumentou a sua renda é porque outra pessoa diminuiu a sua – e vice-versa.

Mas a duração de uma crise não é permanente e o livre mercado tem sido capaz, ao longo dos últimos 200 anos, de aumentar a renda de todas as pessoas. De acordo com as estatísticas de Anguns Maddison [ver nota abaixo], passamos de uma renda per capita mundial de 1.130 dólares por ano em 1820 para 12.400 em 2010. Ao mesmo tempo, a população mundial aumentou de 1,05 bilhões de pessoas para mais de 7 bilhões. Em outras palavras, não só cada pessoa ganha muito mais, como também estamos em número muito maior de pessoas. Se a riqueza indiscutivelmente já existe e basta redistribuí-la, então é impossível que, simultaneamente, a renda per capita da população mundial cresça. Isso só faria algumas pessoas aumentarem os seus rendimentos à custa de outras, o que resultaria numa renda per capita mundial estática – ou menor, se o número de pessoas aumentar.

[Os dados citados são parte deste estudo. Ainda sobre o assunto, recomendo este brilhante vídeo]

Conseguimos multiplicar por onze a renda per capita de todo o planeta (e até por 20 em alguns países ocidentais como os EUA). Assim, ao contrário do que se pensa, a economia claramente não é um jogo de soma zero e desigualdade não o é mesmo que pobreza. Uma sociedade pode ser muito igualitária e ao mesmo tempo muito pobre. Ou muito desigual e muito rica. Albânia, Belarus, Iraque, Cazaquistão, Kosovo, Moldávia, Tajiquistão e Ucrânia são países com uma distribuição de renda muito mais igualitária do que a Espanha, mas são muito mais pobres. Por outro lado, Cingapura é um país muito mais desigual do que a Espanha, mas com uma renda per capita muito maior para todas as classes sociais.

O principal objetivo de qualquer pessoa preocupada com o bem-estar dos outros deve ser o de aumentar a renda da população como um todo e não de reduzir a desigualdade de renda. O bem-estar de um indivíduo está intimamente relacionado ao seu nível de renda, pois uma renda maior proporciona a possibilidade de uma melhor alimentação, uma vida mais saudável, uma educação melhor, mais tempo de lazer, etc. O grau de desigualdade de renda nos países não parece estar relacionado com um menor bem-estar. Além disso, as evidências sugerem que a desigualdade não prejudica o crescimento econômico e, consequentemente, o aumento da renda das pessoas. Portanto, é preferível uma sociedade desigual do que uma sociedade com renda igualitária, porém insuficiente. A prioridade de uma política econômica deve ser o crescimento econômico que beneficie a todos – mesmo que em proporções desiguais – e não a redistribuição de renda.

Redistribuir a miséria

Para algumas pessoas, o crescimento econômico constante é ruim ou é impossível. Para elas, não podemos nem devemos continuar explorando um planeta com recursos limitados. Porém, sobre essa “exploração”, vale ressaltar que explorar os recursos limitados não é a mesma coisa que utilizar o “máximo” potencial dos recursos, ou seja, aproveitar mais eficientemente os recursos disponíveis com o aumento da produtividade. Para essas pessoas, o objetivo é frear o crescimento econômico e redistribuir a riqueza atual: nós não precisamos de mais, precisamos distribuir melhor.

Não é verdade que a redistribuição de renda é a cura para a pobreza no mundo. Hoje, a renda per capita mundial é de 15.600 dólares, isto é, com uma distribuição absolutamente igualitária de renda, apenas conseguiríamos que cada pessoa recebesse 15.600 dólares. À primeira vista, não parece muito pouco, pois uma família de dois adultos e uma criança receberia 46.800 dólares, um valor aparentemente superior que o da maioria das famílias espanholas. O erro desse cálculo é não considerar os conceitos que realmente integram a definição de renda per capita.

Em primeiro lugar, 15.600 dólares é a renda per capita atual de países como Argélia, Botsuana, Brasil, China, Costa Rica, República Dominicana, Iraque, Líbano, Montenegro, Sérvia e Tailândia. Ou seja, se redistribuíssemos perfeitamente a renda mundial, o padrão de vida de cada espanhol seria reduzido ao nível desses países. É uma constatação desagradável, ainda que os 15.600 dólares pareçam bastante numa análise superficial.

Segundo, pela paridade do poder de compra, 15.600 dólares equivalem aproximadamente a 10.400 euros na Espanha. Este cálculo de paridade é feito para se saber quanto os preços no mercado interno de um país equivalem em dólar – que é a unidade de conta mundial. Dito de outra forma: 10.400 euros na Espanha tem o mesmo poder de compra que 15.600 dólares nos EUA. Assim, ao ajustarmos a renda per capita mundial para os preços da Espanha não obtemos uma diferença substancial. Entretanto, ainda assim continua um valor baixo.

Terceiro, nem toda a renda disponível pode ser consumida, pois uma parte dela deve ser investida para aumentar a geração de renda no futuro – se consumirmos toda renda gerada por uma colheita, não será possível investir para gerar uma colheita maior no futuro. Nas sociedades capitalistas, parte da renda investida faz os empreendedores aumentarem suas rendas futuras. No entanto, se a renda é redistribuída, todos nós teremos de investir uma parte da nossa renda para aumentar a nossa capacidade produtiva. Na Espanha, 20% do PIB é destinado ao investimento. Assim, da renda per capita espanhola de 10.400 euros, somente 8.500 poderiam ser consumidos.

Quarto, renda per capita não é mesma coisa que receita em dinheiro. É o valor monetário [em dólares ou euros, por exemplo] de todos os bens e serviços disponíveis para uma pessoa. Ou seja, pela renda per capita sabemos o custo de vida, incluindo itens como habitação, educação e saúde, por exemplo. Atualmente, a sociedade espanhola destina a esses três itens (habitação, educação e saúde) pouco mais de 20% do PIB. Desta forma, se mantivermos tais itens – chamados de “básicos”, a renda disponível seria reduzida para apenas 6.500 euros por ano. Isto é, seriam 540 euros por mês disponíveis para todos os outros itens como comida, roupas, energia elétrica, transporte, segurança, previdência, justiça, cultura ,lazer, etc. E tudo isso considerando que a renda per capita não diminuiria – mas que diminuiria, como foi demonstrado mais acima.

Em suma, dizer que a pobreza mundial se resolve com redistribuição de renda e sem crescimento econômico é mentira. A única coisa que teríamos seria a redistribuição da miséria. O problema atual do mundo não é a desigualdade, mas a pobreza. Tanto nos países desenvolvidos (embora bem menos), como nos países em desenvolvimento, existem muitas pessoas pobres. A nossa prioridade deve ser tirá-los da pobreza e não universalizar suas carências. Mais uma vez, desigualdade não é pobreza: combater a desigualdade não acaba com a pobreza e diminuir a pobreza não é acabar com a desigualdade. É imprescindível separar esses dois conceitos para não sermos enganados pelos ditos defensores dos pobres e desiguais.

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