Quatro anos após a morte de Chávez, a Venezuela mergulha profundamente no abismo

Por Alvaro Vargas Llosa / Publicado no Independent Institute

A ditadura da Venezuelana tentou transformar o quarto aniversário da morte de Hugo Chávez em uma experiência mística – uma espécie de oxigenada política tão necessária para o regime. Mas isso não é uma tarefa simples num país com inflação prevista de 1.600 por cento, uma queda no PIB de dez por cento, uma dolorosa escassez dos itens mais básicos, a taxa de criminalidade mais alta do mundo (120 assassinatos para cada 100.000 habitantes) e com setenta e cinco por cento da população afirmando que rejeita o governo.

Diante disso, é certamente uma conquista de Nicolás Maduro, sucessor escolhido por Chávez, ainda estar no poder por tanto tempo depois da morte do seu antecessor.

Duas coisas concorreram pra isso. A primeira delas foi a reestruturação do exército, realizada com apoio cubano, que permaneceu fiel ao regime de Maduro devido a uma combinação de cumplicidade mafiosa e do medo da punição que a hierarquia chavista sofreria ao deixar o poder. A segunda foi a fragmentação da oposição – conhecida como MUD – pela ingenuidade de alguns líderes que acreditavam que os seguidos convites do governo para manter um diálogo (sempre coincidente com suas piores crises) poderia levar a uma transição democrática.

A última dessas manobras aconteceu no final do ano passado quando os líderes mais ativos da oposição estavam pressionando por um referendo revogatório – constitucionalmente previsto. O governo Maduro, com a ajuda de três ex-chefes de estado (José Luis Rodríguez Zapatero, da Espanha, Leonel Fernández da República Dominicana e Martín Torrijos do Panamá), além do Vaticano, convidou o MUD para participar de uma – prevista – armadilha ao invés de uma negociação efetiva. O único propósito de Maduro era ganhar tempo, pois sabia que, de acordo com a Constituição Chavista, o afastamento do governo em um referendo revogatório só seria possível ainda em 2016. Se conseguisse sobreviver até 2017 Maduro não teria nada a temer. E sobreviveu com a ajuda de boa parte dos líderes do MUD.

Enquanto isso, os verdadeiros líderes da oposição – alguns na cadeia, outros com atuação restringida – têm tentado manter ativo o movimento de resistência. Entretanto, a fragmentação da oposição, bem como a sua incapacidade de manter o controle da Assembléia Nacional que heroicamente ganhou nas eleições legislativas de 2015 – uma retração do Chavismo, instilou novamente o cinismo nas pessoas. Algumas pesquisas recentes mostram uma desaprovação significativa do MUD.

Os países latino-americanos vizinhos não ajudaram muito. Cada vez que o novo Secretário-Geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Luis Almagro, tentou invocar a Carta Democrática Interamericana para denunciar o sofrimento que o chavismo infligiu à população do país, um número significativo de governos – que visivelmente demonstram desprezo por Caracas – têm impedido seus esforços. O apoio de muitos desses países ao “diálogo” de Maduro foi uma tentativa de, ao modo Pôncio Pilates, assumirem a sua própria responsabilidade no sofrimento dos venezuelanos, já que ajudaram ativa ou passivamente o Chavismo em momentos decisivos.

A ditadura de Maduro está atualmente ocupada preparando o terreno para uma fraude eleitoral em 2018, quando as eleições presidenciais devem ser realizadas. O calendário eleitoral sob o Chavismo é um assunto flexível: as eleições para governadores deveriam ter sido realizadas no ano passado, mas o governo as adiou indefinidamente. Além disso, todos os partidos foram obrigados a renovar seu registro na junta eleitoral – uma manobra para barrar a maioria da existência legal [ver nota abaixo].

[Para saber mais sobre a manobra em questão sugiro esta matéria do jornal El País]

Quatro anos após a morte de Chávez, o mergulho da Venezuela para o abismo é um dos mais trágicos acontecimentos do século XXI.

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