Por que entender a “produção indireta” é tão importante

Por Mark Thornton / Publicado no Mises Institute

[O artigo original foi escrito com base em alguns trechos do novo livro que o autor lançará. Na tradução eu suprimi pequenas partes pois acredito que assim o texto ficou mais coeso sobre o tema tratado, visto que no original existiam referências a outros assuntos do livro e que acabavam atrapalhando a leitura]

Os economistas entendem muito pouco sobre como o progresso tecnológico ocorre.
(Alan Greenspan)

Antes de falar sobre os benefícios e  as desvantagens da produção indireta – e da estrutura da produção, será muito útil ver um exemplo prático e concreto do funcionamento dela [produção indireta].

Um bom exemplo de um processo de produção muito direto, em contraste com um indireto, é um fazendeiro que vai para o celeiro, ordenha leite de uma vaca, retorna à sua casa e alimenta a família.

Um exemplo de produção mais indireto, embora ainda bastante direto, vem da época da minha infância. Vivíamos na divisa de uma pequena cidade. Logo além da nossa casa havia campos e celeiros. O gado leiteiro se alimentava do pasto nos campos e depois ia para os celeiros ser ordenhado. O leite então era transportado em um pequeno caminhão-tanque para uma das três pequenas fábricas de laticínios da cidade – distantes no máximo 3 quilômetros. Lá, o leite era processado e engarrafado. Na manhã seguinte, bem cedo, um homem vestindo um traje branco – o leiteiro – chegava em nossa casa, colocava algumas garrafas de leite numa caixa do lado de fora da porta e pegava as garrafas, agora vazias, que tinha colocado ali na manhã anterior. Se quiséssemos algo diferente como um mero sorvete, tínhamos que ir até a fábrica e em um horário específico.

Quando terminei o ensino médio todo o sistema tinha mudado. As pequenas fazendas leiteiras tinham sido amplamente substituídas por fazendas maiores. Os pequenos caminhões-tanque de quatro rodas foram substituídos por grandes carretas-cisterna de dezoito rodas. As carretas de dezoito rodas levavam o leite in natura das fazendas para a fábrica de laticínios – distante cerca de noventa quilômetros da nossa casa. Da fábrica, um enorme caminhão refrigerado de dezoito rodas levava para o supermercado as caixas de leite, sorvetes e potes de manteiga produzidos. As três pequenas fábricas de laticínios da época da minha infância tinham fechado. Elas foram substituídas por uma muito maior a quilômetros da nossa casa. Ao invés das garrafas de leite serem entregues diretamente na nossa casa, comprávamos leite e laticínios no supermercado da região – um empreendimento que também era um fenômeno relativamente recente.

Tornar os processos de produção mais indiretos resulta em maior quantidade produzida e em menor custo por unidade. Os empreendedores não tornarão os processos de produção mais indiretos a menos que eles pensem que terão mais lucro como resultado. A produção indireta envolve mais tempo, mais etapas, uma maior divisão do trabalho e, também, novas tecnologias.

O último processo acima descrito é um método de produção muito mais indireto. Leva mais tempo. O leite viaja cento e oitenta quilômetros entre a ida e a volta ao invés dos seis quilômetros de antigamente. Há uma maior quantidade de bens de capital envolvidos, bem como tecnologia mais avançada. Cada unidade produzida demanda menos trabalho. Assim, o reflexo no preço de venda final é significativo, pois o custo total de produção de cada produto é menor, fora que a concorrência entre grandes atacadistas e supermercados reflete ainda mais no preço.

Para se chegar num processo de produção mais indireto existem várias condições. São necessários empreendedores que enxerguem que esse processo será mais rentável que outros, mais investimentos em bens de capital e mais inovação tecnológica. Naturalmente, toda esta reorganização da produção vai levar muito tempo e ainda mais tempo para que seja rentável.

Para isso, os empreendedores precisam ter poupado ou tomar crédito de longo prazo. Eles precisam fazer investimentos [ver nota abaixo] para implementar novos processos. É necessária uma economia com ampla poupança formada [ver nota abaixo] para se conseguir processos produtivos indiretos – e todos os benefícios obtidos por este arranjo. Os poupadores devem ter preferência temporal menor e estarem dispostos a postergar algum consumo presente em favor de serem recompensados com os rendimentos dos juros, com os quais serão capazes de fazer uma maior quantidade de compras no futuro e a preços mais baixos – por causa do aumento na produção de bens. Todo esse processo é regido pela taxa de juros, pelo sistema de preços e pelo sistema de lucros e perdas.

[Investimentos neste caso são a aquisição de bens de capital, busca de novas tecnologias, etc, e não aplicações financeiras]

[A poupança é a renda da sociedade que não foi consumida e ficou a disposição para ser investida]

O processo de produção indireta muitas vezes é conhecido como a criação de economias de escala [assunto tratado nos cursos de administração]. Mas observe que embora haja economias de escala, toda a estrutura de produção mudou. A abordagem mais bem sucedida não foi preestabelecida ou conhecida anteriormente. Todo modo ou técnica de produção se modificou. Todos os bens de capital – as ordenhadeiras nas fazendas, os caminhões e a maquinário das fábricas de laticínios – são outros. Note ainda que a mudança na indústria de laticínios provocará mudanças em outras atividades, incluindo a indústria de máquinas de ordenha mecânica – que fará investimentos em novas tecnologias, por exemplo.

Todo esse processo ocorre numa sensível sincronização que está, evidentemente, muito além da capacidade do planejamento governamental centralizado.

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